A CRISE DA NARRAÇÃO
O necessário "ato de historicizar": um olhar para a práxis psicanalítica a partir de Byung-Chul Han
Esta aula parte de contribuições de Byung-Chul Han, em seu livro "A Crise da Narração", e sua análise da proliferação de "narrativas" (storytelling) para lançar um olhar crítico na direção de seus possíveis efeitos na clínica psicanalítica, em especial com a mercantilização de "diagnósticos", o que nos chama a atenção para a necessária resistência quanto aos atos de narrar e historicizar por parte do par analítico.
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SOBRE FOGUEIRAS, NARRAÇÕES E HISTÓRIAS
Esta aula é voltada a todos os profissionais, psicoterapeutas ou analistas, que apreciam o diálogo entre o olhar psicanalítico e as contribuições que veem de outras áreas da ciência. Neste caso específico, me utilizarei de contribuições de Byung-Chul Han e seu livro A Crise da Narração, de 2023, para pensar alguns aspectos que atingem a práxis psicanalítica, em especial as relações entre o par analítico.
Veja, vivemos um tempo em que a palavra perdeu densidade e não é difícil perceber isto. Mas, ele está mais preocupado com um uso específico da palavra. Aquele que surge na “narração”. E aí, o que assistimos é que no lugar das narrações que se tecem no tempo encontramos micronarrativas prontas e acabadas, slogans que contam minúsculas histórias. No consultório, talvez o equivalente dessas micronarrativas prontas e acabadas seja a proliferação de slogans terapêuticos, frases motivacionais generalizantes e que parecem carregadas de verdade, diagnósticos fechados e bem embalados, enfim, protocolos rápidos e bem definidos de intervenção.
Isso tudo nos mostra que a clínica está, cada vez mais atravessada pela lógica da mercantilização, correndo o risco de se tornar um espaço de consumo, onde o paciente vai e encontra "explicações" de todo tipo e "soluções" que lhe são apresentadas. Um lugar onde a subjetividade do indivíduo se transforma em um “caso” ou ganha um “rótulo”, mas ele mesmo não se torna capaz de contar, de narrar.
A crise da narração, então, traz repercussões e também pode alcançar a psicanálise, pois pacientes chegam sem conseguir dar forma às próprias experiências, e muitos analistas e psicoterapeutas, pressionados por um discurso de eficácia e desempenho, podem ceder à tentação do storytelling clínico, um tipo de resposta organizada e pedagógica que é dada ao paciente, porém vazia de mistério, de significados e de pessoalidade. É nesse ponto que precisamos nos interrogar sobre o que acontece com a subjetividade quando perdemos o gesto de narrar, quando a vida não mais se inscreve numa história que pede escuta, comunicação e narração?
Resistir hoje em dia significa lutar por recuperar ou manter o espaço da narração na clínica psicoterapêutica. Não é o mercado ou o discurso farmacêutico que dita nossos protocolos. Nossas medidas não são as do desempenho competitivo e mercantil. Buscamos a subjetividade que narra e se organiza em uma história.
E narrar, portanto, é mais do que organizar fatos; é historicizar, dar contorno ao vivido, encontrar sentidos provisórios que permitam ao sujeito habitar o tempo e não apenas consumi-lo. É nesse gesto que a psicanálise se encontra com sua própria vocação: ser guardiã da experiência humana em sua opacidade e mistério, em oposição ao apelo do mercado que quer reduzir o sofrimento a etiquetas e rótulos, abrindo mão do tratamento, ou pior, confundindo-o com a mera medicação.
Nesta aula, proponho revisitar a importância da narração, imaginando aqueles momentos em que, em torno de uma fogueira, tecemos vínculos, guardamos segredos e damos nome às forças invisíveis da vida. Esses momentos em que recolocamos o narrar no centro da clínica são momentos em que possibilitamos profundidade à existência, jamais vista como uma mercadoria, mas como uma experiência a ser compartilhada, sustentada e transformada.
Henrique Silva
OBJETIVOS DA AULA
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Conhecer um pouco mais do pensamento de Byung-Chul Han, um pensador que tem se dedicado a apresentar olhares e diagnósticos sobre temas fundamentais da sociedade e da cultura contemporâneas;
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Identificar a tese central do livro "A Crise da Narração" e seus efeitos com a expansão de micronarrativas, como o storytelling, muito mais voltadas à vida digital e mercantil, cujos parâmetros sustentados pela eficácia e desempenho colocam em xeque a construção e integração do self;
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Refletir sobre aspectos da relação que envolve o par analítico e as possibilidades de narração para construção de sentidos e o tecer de uma história que sustente a subjetividade;
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Refletir sobre o "ato de historicizar", tão fundamental à práxis clínica psicanalítica;
TÓPICOS DE ESTUDO
Módulo 1 - BOAS-VINDAS
Seja bem-vinda(o)!
Suporte à(o) aluna(o)
O professor e analista!
O conteúdo da aula
Módulo 2 - AULA GRAVADA
"A Crise da Narração na Clínica Psicanalítica e o Ato de Historicizar"
Módulo 3 - TEXTO BÔNUS
"A Crise da Narração e o Necessário Ato de Historicizar"
Texto em pdf, de autoria do analista e prof. Henrique Silva
COM QUEM VOCÊ IRÁ ESTUDAR?
Henrique Silva
Psicanalista
Olá, como psicanalista ofereço atendimento a adolescentes e adultos; orientação e apoio a pais; e supervisão clínica, individual e em grupo, a profissionais de psicologia e psicanálise.
Minha formação e atuação clínica se dá, em especial, a partir das contribuições de Freud, Winnicott, M. Khan e C. Bollas para a psicanálise e a psicoterapêutica atuais.
Também atuo no ensino coodenando o Grupo de Estudo Sobre a Obra de D. W. Winnicott, com o Ciclo Anual de Seminários Psicanalíticos Winnicott, além de Seminários Psicanalíticos de teoria e técnica e de aplicação da psicanálise à cultura (literatura e cinema). Na docência extra-consultório, atuo em formações psicanalíticas e pós-graduações em psicanálise, além de seminários sob demanda.
